quarta-feira, 19 de setembro de 2018

A POESIA E A MÚSICA EM PLATÃO E ARISTÓTELES.




Platão entedia que os poetas tinham grande potencial para corromperem[1] a juventude propondo a expulsão deles caso não sigam os cânones estabelecidos pelos filósofos, sendo preferível uma educação sóbria, honrada e guerreira, pois “A musica deve culminar no amor ao belo.” (Platão, 2001, p. 403c).
Platão tinha extrema preocupação com a formação das crianças e dos jovens e explicita esta preocupação em A República como veremo no trecho abaixo:
“Sócrates — Não convém começarmos a sua educação pela musica [poesia musicada] e depois pela ginástica?
Adimanto — Sem dúvida.
Sócrates — Tu admites que os discursos fazem parte da música ou não?
Adimanto — Admito. (...)
 (...) Sócrates — Nós não começamos contando fábulas às crianças? Geralmente são falsas, embora encerrem algumas verdades. Utilizamos essas fábulas para a educação das crianças antes de levá-las ao ginásio.
Adimanto — É verdade. (...)
 (...) Sócrates — E não sabes que o começo, em todas as coisas, é sempre o mais importante, mormente para os jovens? Com efeito, é sobretudo nessa época que os modelamos e que eles recebem a marca que pretendemos imprimir-lhes.
Adimanto — Com certeza.
Sócrates — Sendo assim, vamos permitir, por negligência, que as crianças ouçam as primeiras fábulas que lhes apareçam, criadas por indivíduos quaisquer, e recebam em seus espíritos entender, quando forem adultos?
Adimanto — De forma alguma permitiremos.
Sócrates — Portanto, parece-me que precisamos começar por vigiar os criadores de fábulas, separar as suas composições boas das más. Em seguida, convenceremos as amas e as mães a contarem aos filhos as que tivermos escolhido e a modelarem-lhes a alma com as suas fábulas muito mais do que o corpo com as suas mãos. Mas a maior parte das que elas contam atualmente devem ser condenadas.” (Platão, 2001, p. 376e).

Platão tinha a convicção de que a educação musical era o mais importante por carrega consigo o ritmo e a harmonia[2], a melhor forma para se ensinar os seguintes temas:
O bom, o bem, a honestidade, coragem, verdade, piedade, cumprimento da palavra empenhada, honra, amizade, liberdade, autonomia, autossuficiência, resiliência, autocontrole, temperança, firmeza de caráter, desapego, insubornável, justiça, heroísmo, que Deus é bom, imutável e transparente, voluntariado, desprendimento, altruísmo, diplomacia, religiosidade, amor pelos estudos e humildade.[3]
Estes temas poderiam ser realizados em forma de comédias e tragédias (que são miméticas), ditirambos (que são narrativas[4] do poeta) e a epopeia (que combina as duas). Nas apresentações as virtudes devem ser imitadas e os vícios narrados por causa dos exemplos que dão.
O caráter das melodias é composto por palavra, harmonia e ritmo, e estes três elementos devem seguir o já exposto quanto ao conteúdo das músicas e fábulas. Existem harmonias e ritmos, regiões e extensões[5] mais adequadas. Harmonias e ritmos devem remeter aos temas já falados. É preciso catalogar, pesquisar e posteriormente adaptar cadência, ritmo e melodia às palavras. 
Estas qualidades musicais são aprovadas em outras artes. Para Platão “A musica deve culminar no amor ao belo.” (Platão, 2001, p. 403c).

Para Aristóteles, como visto em Poética, a arte não oferecia tantos riscos como os percebidos por Platão.
Para Aristóteles a historia deve ser severa se atendo aos fatos ocorridos, o mimetismo possui valor filosófico, a poesia pode ser mais livre trabalhando com a verossimilhança e esta não deve ser confundida com desordem, pois a trama precisa de coerência para não cair no absurdo, não convencendo os espectadores com mudanças bruscas e injustificadas no caráter das personagens, que geram a sensação de confusão e apelação, seguindo esta restrição o poeta teria total liberdade e poderia explorar um terreno muito mais amplo que o historiador.
Do ponto de vista politico e educativo a tragédia tinha função purgante, e a transição da prosperidade ao infortúnio no herói trágico provocava e purgava a compaixão e o medo no cidadão.
Tanto a poesia quanto a historia podem ser escritas em verso ou prosa, mas o poeta se ocupa das coisas que poderiam acontecer, o historiador se ocupa das coisas que de fato aconteceram. “Por tal motivo a poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular.” (Aristóteles, 2003, p. 43). E por esta característica da poesia que determina a forma de pensar e agir é considerada mais séria que a historia.
As belas tragédias são complexas em sua composição, devem imitar conjunturas, geram o terror e a piedade, as transições dos personagens devem ser gradativas, pois mudanças bruscas no destino ou estado de espirito destas não são bem aceitos. A piedade busca o infeliz que não merece o ser, e o terror busca o infausto, o ruim que merece o ser.
O mito precisa ser claro e não dúbio para ser bem composto, precisa ter tendência à melhoria politica e educativa, pois:
“Para que uma fábula seja bela, é portanto necessário que ela se proponha um fim único e não duplo, como alguns pretendem; ela deve oferecer a mudança, não da infelicidade para a felicidade mas, pelo contrário, da felicidade para o infortúnio, e isto não em consequência da perversidade da personagem, mas por causa de algum erro grave, como indicamos, visto a personagem ser antes melhor que pior.” (Aristóteles, 2003, p. 52).   

Em função da crise ética e moral que vivemos na contemporaneidade, talvez seja o momento de um novo renascimento, de um retorno aos ancestrais e as nossas raízes culturais, de olharmos e nos espelharmos novamente na Grécia, em Roma e Israel. Talvez seja hora de nos lembrarmos da ressurreição, do renascimento, da renascença da emplumada Fênix, e de Cristo, que também “renasce das cinzas” no terceiro dia.
Portanto, arte, música, poesia[6] deveriam ter a mesma função educativa que tinha na Grécia de Platão e Aristóteles, sendo os conceitos do primeiro aplicado na educação das crianças e dos adolescentes e do segundo aplicado na educação dos jovens e adultos, bem como o transcendental artístico que nos traz a paz de espirito que tanto precisamos em um mundo tão conturbado e fanatizado politicamente a ponto de se demonizar e desumanizar as vozes dissonantes ao discurso oficial tido como respeitável.
Um exemplo desta arte transcendental[7] é a peça musical “Da pacem domine”. E uma obra sacra, musical, gregoriana, recolhida de manuscritos do santo sepulcro em Israel no século XII, associam o bizantino e o latino.
Abaixo a peça para audição.



Referências:
PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2001. (Com correções a partir da tradução original e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, da Calouste Gulbenkian
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco; Poética. Seleção de textos de J.A. Motta
Pessanha. Col. Os pensadores, 4. ed., v. 2. São Paulo: Nova Cultural, 1991.
ARISTÓTELES. Arte Poética. São Paulo: Martin Claret, 2003.
BONTEMPO, Márcio. “O caduceu de Mercúrio: Um estudo metafísico sobre a Medicina e o Homem, com base na Sagrada Doutrina.” São Paulo: Editora Best Seller, 1995
BULFINCH, Thomas. O livro da mitologia. 2. Ed., São Paulo: Editora Martin Claret, 2015



[1] Esta foi a primeira reflexão sistemática registrada sobe Educação e Arte.
[2] Elementos que tocam a alma.
[3] Estas são a base para moldar o bélico e o voluntário nas pessoas e teria que ser a regra.
[4] Existe também a narração dos indignos e medíocres, que possui conteúdo contrário e carregado de vícios, bestialidade, covardia, perversão, zombaria e indecências. 
[5] Espectro sonoro dos instrumentos e vozes.
[6] No sentido grego do termo.
[7] Podemos ver em Bontempo explicações mais minuciosas sobre este tema.

Um comentário:

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