sábado, 21 de maio de 2022

A DIALÉTICA SIMBÓLICA - FICHAMENTO DO CAPITULO 2


 


SUMÁRIO

 

 

Fichamento do capitulo 2 de “A Dialética Simbólica”, referente as páginas 37 a 42 do livro base..........................................................................................................................03

Nota complementar..........................................................................................................06

Referências......................................................................................................................07

 

 

 

 

Emoção e reflexão 

E

motion recollected in tranquillity[1] (...) da arte em geral (...) é enunciado de um requisito básico para seu exercício. (...) [,] de psicologia da arte.

Mas a palavra “arte”, no caso, deve ser entendida em sentido mais amplo (...)

Deve abarcar, de certo modo, o orbe inteiro das criações intelectuais (...) [pois] estas nem podem emergir nada sem que alguma experiência[2] espiritualmente emocional dê impulso inicial à criatividade (...), nem pode encontrar as condições de sua plena manifestação formal sem o recuo posterior que rememore essa experiência e a elabore na tranquilidade da reflexão.

 

“Reflexão”, aí, (...) designa o simples retorno interior, consciente e deliberado à experiência, seja para reproduzi-la (...), seja para completa-la ou altera-la. O que distingue o momento reflexivo da experiência interior direta é o propósito consciente de fixa-la, seja [da forma que for] (...), esse intuito vai precisamente em sentido contrário ao fluxo vivo da experiência[3] ; é um retorno espiritual e intencional àquilo que, real e materialmente, não retorna jamais. (pág 37)

Por essa razão, sempre me pareceu tolice e mera pose a pretensão dos artistas que afirmam captar a experiência viva e se julgam por isto mais sábios, quase como profetas ou anjos, em comparação com os filósofos ou cientistas (...). Pois a “experiência viva” se não vem em forma de (...) [criação intelectual humana (pág 37)], mas nela convertida (...) [pelo] artifício do artista, que ao fazê-lo se distância tanto dela, indo em direção ao espirito, quanto o faz o filósofo ou cientista, que dele se distancia apenas (...) [pela] formalização que empregam.

 

(...) não me referi à experiência direta e bruta, e sim a uma experiência já espiritualizada e valorizada. (...) na alma excelsa a experiência, por menor que seja, indica sempre algo que vai muito além da experiência, o particular é signo do universal e a experiência, (...) já traz em plano de fundo o elemento de recuo contemplativo que a enaltece (...) com uma significação que transcende (...)

(...) o homem profundo e sensível (...) obtém colheitas mais ricas em repercussões interiores (...) simplesmente porque já é de antemão quem é (...) (pág 38) [4]

(...) o verdadeiro poeta e o verdadeiro filósofo (...) percebem com reais e imediatas certas relações mais sutis (...).

Mas mesmo esta experiência espiritualmente diferenciada (...). Tem de ser transposta mediante um trabalho posterior de rememoração, seleção, ordenação e etc. (...) daí o termo “obra de arte”, que quer dizer: fruto do trabalho humano, jamais um dom gratuito da natureza.      

Não existe, ademais, a menor diferença específica entre a experiência espiritual (...) [de quem produz a “criação intelectual humana” (pág 37)] quando o é verdadeiramente. (...) A diferença está nos vários códigos [5] que servem, depois, como que de guias (...) para a elaboração refletida.[6] (...). (pág 39)

Dessas exigências, (...)[7] Pouco importa: o fato é que na hora de transformar sua experiência pessoal em forma comunicável, o sujeito criador tem de levá-las em conta.

(...) [A] experiência interior a que me refiro é aquela mencionada por Aristóteles. “Aqueles que passam por uma iniciação (...) estão ali para (...) sofrer uma experiência interior e ser postos em uma certa disposição...”. [8]

É evidente que esta experiência interior (...) está precisamente, a meio caminho da experiência crua e da forma conscientemente criada. É a precondição indispensável de toda “criação intelectual humana” (pág 37) (...), sendo anterior e indiferente a estas diferenciações de nomes de disciplinas.

É por isso mesmo que, no julgamento das criações da inteligência, se pode levar em conta (...) a elaboração (...) [,] a amplitude, a coerência e a qualidade da experiência interior que lhe serve de base. Esta experiência é o que constitui o “mundo” [de todo aquele que produz a “criação intelectual humana” (pág 37)] (...), mundo que, (...) independentemente do esforço reflexivo posterior (...), pode ser mais rico (...), mais integro (...), mais profundo e abrangente, ou menos. Se existe um sentido na (pág 40) distinção entre “conteúdo” e “forma”, é quando toma como sinônimo de “conteúdo” a forma da experiência espiritual como tal, anterior (...) [a] forma concreta da “obra” (...) o julgamento qualitativo da experiência espiritual transcende e abole as diferenças entre as disciplinas formais (...)

Não é necessário, aqui, tomar a palavra “iniciação” no sentido estrito e convencional de pertinência a uma confraria de mistérios e de submissão a ritos tradicionais oficiados por hierofantes de carne e osso. O espirito sopra onde quer, e, (...) quanto mais corrompidas e esgotadas estejam as igrejas e as ordens secretas, mais se multiplicarão os casos de comunicação direta entre o Sentido e a alma. [9]

Que uma experiência espiritual possa ser bastante semelhante a uma outra; (...) os universos interiores de dois homens de ofícios intelectuais diversos podem ser bem mais aparentados entre si do que os de dois homens do mesmo ofício. (...) [se torna claro quando se observa]

As afinidades de “conteúdo”, no sentido da comunidade de experiência espiritual, [que] transcende não somente as diferenças de (pág 41) disciplina a disciplina, de gênero a gênero, porém, até mesmo a diversidade de ideias e convicções pessoais (...) [, pois] não existe vinculo de implicação reciproca entre a natureza da experiência espiritual e a modalidade ou gênero, de sua expressão concreta nas formas das disciplinas culturais reconhecidas.           

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nota complementar:

1) Este texto é uma aula de 2 de julho de 1996 do seminário de filosofia, segundo nota de rodapé na página 37 do livro base.

2) Nas notas de rodapé podem ser encontradas complementos oriundos do próprio texto e também comentários pessoais.

3) A revisão final teve como trilha sonora o link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=NyAIxYWIvx4 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências

CARVALHO, Olavo de. A Dialética Simbólica. 2. Ed. Campinas, SP: Vide Editorial, 2015



[1] Emocional recordado em tranqüilidade. A tradução do Maestro Dante na aula foi “Emoção recolhida na tranqüilidade”.  

[2] Segundo o Maestro Dante Mantovani na aula 2 do curso de filosofia da arte e de estética musical do Seminário de Música, no ano de 2022, Um dos núcleos principais da filosofia do professor Olavo de Carvalho é o primado da experiência como fonte primordial do conhecimento.

[3] Experiência da forma como vista no texto base.

[4] Na página 38 existe um trecho, uma citação em francês que é a seguinte:

“Mon cœur profond ressemble à ces voûte d’église, où le moindre bruit s’enfle em une immense voix”.  Eu, com francês nível -10 com tradutor de internet  traduzi da seguinte forma:

Meu profundo coração se assemelha a essas abóbodas de igrejas, onde o menor ruído se transforma em uma imensa voz.

Na aula o maestro Dante traduziu da seguinte forma:

Meu coração ressoa profundamente com vossas aspirações e o meu reflexo bruto se infla na sua imensa voz.

[5] Os códigos seriam como ferramentas diferentes em busca de alcançar o mesmo objetivo.

[6] Tendo sido refletida, está na memória nos conduzindo, portanto, de volta ao início do texto base. 

[7] Do ofício ou senso comum, que são apenas ferramentas.

[8] Frag. 153 (Synesius, Dio 48 A). Conforme nos mostra o texto base na página 40.

[9] Poderíamos, quem sabe, colocar aqui o termo “instituições” ampliando  a abrangência da frase.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

A POLÍTICA DE ARISTÓTELES - FICHAMENTO DO CAPITULO 8




 SUMÁRIO

 

 

Sinopse.................................................................................................................................

Capítulo I.............................................................................................................................

Capítulo II............................................................................................................................

Capítulo III..........................................................................................................................

Capítulo IV...........................................................................................................................

Capítulo V............................................................................................................................

Capítulo VI..........................................................................................................................

Capítulo VII.........................................................................................................................

Nota complementar..............................................................................................................

Referências..........................................................................................................................

 

 

 Livro oitavo (“A Política” de Aristóteles)

Sinopse: A educação dos jovens (...) – Diferença entre as artes (...) – Da literatura, da ginástica, da música e do desenho – A utilidade (...) [e a] educação – Da ginástica e da música

 

Capítulo I

 §1. (...) a educação dos jovens deve ser um dos principais objetos de cuidado por parte do legislador; (...) os Estados que a desprezaram prejudicaram-se (...) os costumes (...) são os mais seguros fundamento (...); e os costumes mais puros dão sempre o melhor governo.

§2. (...) em toda espécie de arte, há coisas que é precioso conhecer antecipadamente, e hábitos que é preciso contrair, para estar em condição de executar os trabalhos (...) o mesmo deve acontecer com as ações virtuosas.[1] Mas como existe um objetivo único para a cidade, (...) a educação também deve ser única para todos, administrada em comum, (...) aquilo que é comum a todos deve também ser aprendido em comum (...) [, e] não imaginar que cada cidadão se (pág 267) pertence a si próprio, e sim que todos os cidadãos pertencem à cidade (...) [e devem] harmonizar-se com o cuidado que cabe ao todo. [2]

§3. (...) pode-se louvar aos (...) que empregam o máximo de atenção na educação dos filhos (...) [e] ela deve ser comum (...) [a todos. Porém,] não mais se entende quanto às matérias que os jovens devem aprender para chegar à virtude e à vida perfeita (...) [,] se convém ocupar-se da inteligência ou das qualidades morais. [3]

§4. (...) Não se sabe a certo se deve ensinar as artes úteis à vida, ou os preceitos de virtude, ou a ciência de pura recreação. [4]

 

Capitulo II

§1. (...) entre as coisas úteis é preciso que se esteja a par principalmente daquelas que são de incontestável necessidade (...)[5] [evitando a exclusividade das artes mecânicas.][6] chamamos mecânicas todas as artes que alteram as inclinações naturais do corpo, e de todos os trabalhos que são mercenários; porque não deixam ao pensamento nem liberdade, nem dignidade.[7]

§2. Mas nada há de servil em cultivar certas ciências liberais, pelo menos até certo ponto. Só uma aplicação exagerada e a pretensão (...) [da] perfeição (...) podem produzir os inconvenientes [8] (pág 268) (...) [.] há muita diferença conforme o fim que se tem em vista (...) [.] quando o único objetivo é a utilidade[9] (...) nada há nisso de mesquinho (...) [. Porém o] trabalho que se faz para outrem parece possuir algo de mercenário e servil. As ciências e as artes (...) apresentam, pois, essa dupla tendência (...) [10]

§3. Hoje a educação compreende (...): a gramática, a ginástica e a música (...), às vezes o desenho. A gramática e o desenho são considerados úteis à vida (...) [.] A ginástica serve formar a coragem. Quanto à música, (...) hoje ela só é ensinada como arte de recreação, ao passo que antigamente fazia parte da educação; pois a própria natureza (...) [busca nos] proporcionar nobres distrações; porque (...) é a natureza que começou tudo. [11]

§4. Se o trabalho e o repouso são ambos necessários, o repouso é, sem dúvida, preferível ao trabalho, e geralmente é preciso procurar o que se deve fazer para aproveita-lo. Não se trata, certamente, de simples prazer, porque disso se deduziria ser para nos, o prazer, o objetivo da vida (...) é preciso, quando se recorre aos prazeres, espreitar o momento favorável para deles fazer uso, como (...) remédio.[12]

§5. Parece que existe no próprio descanso uma espécie de prazer, felicidade e encanto unidos à vida, mas que se encontram somente nos homens livres[13] de todo trabalho[14], (...) a felicidade é o objetivo sobre o qual nos apoiamos sem cuidado, em pleno prazer. (...) [Que este] não é o mesmo para todos [.] (pág 269) O homem perfeito concebe a felicidade perfeita, compondo-a das virtudes puras.

 §6. (...) Resta, pois, que ela [, a música,] seja útil para as horas de descanso, o que a faz ser admitida como parte da educação. Compreendeu-se nome aquilo que se considera como distração dos homens livres. (...) a música é a distração mais agradável, quando os homens se entregam ao prazer.

 

Capitulo III

§1. (...) existe uma educação que deve ser ministrada aos jovens, (...) por ser liberal e digna (pág 270) (...) os antigos nos prestaram o seu testemunho às partes essenciais da educação; disso nos dá a música uma prova evidente. (...) é preciso ensinar aos filhos certas coisas úteis (...) porque proporcionam o meio de adquirir muitos outros conhecimentos.

§2. O mesmo não podem dizer do desenho. (...) o estudam (...) para chegar a uma concepção mais delicada da beleza dos corpos. Aliás, em tudo só procurar o útil é o que menos convém a homens livres que tem um espirito elevado. (...) se devem formar os hábitos nos filhos antes de formar a sua razão, e o corpo[15] antes do espírito. (...)

§3. (...) nos Estados que passam por prestar os maiores cuidados à educação das crianças, muitos se empenham em dar-lhe uma constituição atlética, assim aviltando as formas e o desenvolvimento do corpo. Os lacedemônios, (...) à força de acostumar os jovens às fadigas, por ser este o meio de dar-lhes uma coragem indómita, fazem-nos ferozes. (...) Mesmo quando a coragem militar fosse o principal objetivo, não se pode alcança-la por esse meio; porque, nos outros animais, assim como no homem, a coragem não aparece acompanhar os temperamentos mais ferozes, e sim os mais dóceis.[16]

§4. (...) sabe-se (pág 271) ainda que os próprios lacedemônios, enquanto empregaram todo seu tempo nos trabalho de fadigas corporais, tiveram superioridade sobre outros povos, mas hoje estão bem atrasados (...) [.] eles não deviam sua superioridade ao seu modo de exercitar os jovens, mas sim ao fato de se baterem contra inimigos que não se exercitavam.

§5. É preciso, pois, colocar em primeiro lugar a honra e não a ferocidade. (...) os animais selvagens não arrostariam[17] um perigo em nome da honra; só o homem de bem disso é capaz. Mas os que esforçam demasiado a criança nesta parte da educação, e a deixam na ignorância absoluta das coisas que é preciso saber, só fazem dos filhos péssimos (...) por quererem torna-los uteis à sociedade (...) [.]

 

Capitulo IV

§1. (...) Até a época da adolescência só se devem empregar exercícios pouco fatigantes, proibindo às crianças uma alimentação excessiva e todos os trabalhos pesados, a fím de que nada possa prejudicar o seu crescimento. [18]

§2. Mas, a partir da puberdade, os jovens se entregarão durante três anos, a outros estudos, (...) porque não se deve cansar o corpo e a inteligência ao mesmo tempo. (...) a fadiga do corpo é prejudicial ao desenvolvimento do espírito, e a do espirito ao desenvolvimento do corpo. (pág 272)  

§3. (...) sobre a música (...) não é fácil apontar a influência que ela pode ter, e se é como prazer e descanso que se deve ser considerada (o que também se poderia dizer do sono e do uso do vinho puro); porque essas duas (...) são agradáveis, e ao mesmo tempo acalmam os nossos pesares. (...) faz-se mais ou menos o mesmo uso destas três coisas – o sono, o vinho e a música, chegando-se mesmo a acrescentar-lhes a dança.

§4. Será preciso crer que a música contribui com qualquer coisa para a virtude (...) ou então que ela contribui ao mesmo tempo para o prazer e para o desenvolvimento do espirito? (...) não se deve fazer da instrução uma simples distração, pois instruir-se não é distrair-se, e o estudo vem acompanhado de algum aborrecimento.

§5. (...) aquilo que para as crianças é um negócio importante destina-se a diverti-las quando forem homens (...)[.] E, com efeito, é natural que aqueles que sempre se dedicam a um só trabalho, elevando-o à altura de arte, nele melhor sucedam que os que consagram o tempo necessário para aprende-lo.

§6. A mesma objeção surge supondo-se que a música possa melhorar os costumes. Para que estuda-la, ao invés de (pág 273) gozar-lhe o verdadeiro prazer e poder julgar escutando os outros? (...) Sem conhecer a música os lacedemônios, diz-se, podem muito bem julgar das belezas e imperfeições da harmonia.[19] (...)

§7. Pode-se ainda considerar (...) [que] os poetas não nos representam Zeus cantando e tocando lira (...) [e] que a música é uma arte servil, e que para exercê-la é preciso estar embriagado ou querer divertir-se.[20] (...)    

 

Capitulo V

§1. O primeiro ponto é saber se ela [, a música,] deve fazer parte da educação, ou se deve ser excluída, e se é uma ciência, um prazer, ou um simples passatempo.  (...) ela parece reunir todas três [características]. Porque o prazer tem por fim o descanso, (...) [que é] agradável, (...) uma espécie de remédio contra a fadiga (...) [.] o passatempo deve reunir o honesto ao agradável; (...) a felicidade se compõe dessas duas condições (...) [. A] música (...) instrumental ou (...) [com] canto é uma das coisas mais agradáveis.

§2. (...) o maior prazer dos mortais é o canto. (...) a música nos reúne e nos divertimentos (...) faz nascer a alegria. Este motivo bastaria (...) para (...) que os jovens aprendessem a música. Porque todo prazer que não prejudica é conveniente (...) como distração. (...) é útil procurar um descanso nos prazeres que a música proporciona. (pág 274)

§3. (...) os prazeres de que falo não se referem a coisa alguma que deva estar no futuro; ao contrário, refere-se às coisas passadas, como os trabalhos e as penas. (...) é tal a coisa que faz com que se espere encontrar a felicidade em todos os prazeres.

§4. Quanto a saber se é preciso estudar música não só por ela própria, mas também pela sua utilidade como um modo de distração (...) a influência que ela pode exercer no coração e na alma. E essa influência seria incontestável se fosse verdade que a música tem poder de modificar os nossos gostos à sua vontade.

§5. Ora, que ela produza tal fato é claramente provado pelas árias melodiosas de muitos músicos, principalmente de Olimpo. Essas árias (...) despertam o entusiasmo na alma, e o entusiasmo não passa de um movimento especial da alma (...) [. É] claro que o primeiro dos nossos estudos e dos nossos hábitos deve-se julgar serenamente, e só colocar o prazer nas sensações honestas e nas ações virtuosas. (pág 275)

§6. Ora, nada imita melhor os verdadeiros sentimentos da alma que o ritmo e a melodia, seja em se tratando de cólera, da meiguice (...) [e etc.] a música desperta em nossa alma em todas essas paixões.

§7. Os objetos que recaem sobre os outros sentidos como o tato e o gosto, não tem analogia alguma com as afeições morais [.] (...) Se se cogita da importância da escolha dos modelos, (...) são os quadros de (...) Polignotos ou qualquer outro pintor ou estatutário que se aplique a representar os costumes.

§8. (...) a música é a imitação das afeições morais, (...) existem diferenças essenciais na natureza dos diversos acordes. Aqueles que os ouvem se impressionam de diferentes modos a cada um dos seus acordes: alguns destes (...) predispõem à melancolia e a sentimentos concentrados (...) [, outros à] voluptuosidade e abandono (...) [, outros ainda] à alma paz e repouso (...) [, e outros mais excitam] o entusiasmo. (pág 276)

§9. E o que observam (...) os que se aprofundaram nessa arte da educação: (...) apoiam-se, em seus raciocínios (...) [e] no próprio testemunho dos fatos (...) [. As] diversas espécies de ritmos (...) exprimem costumes calmos, pacíficos, e outros perturbação e movimento (...) [.] É incontestável pois, que a música exerce um poder moral[21] (...) [;] é também evidente que se deve a recorrer, ensinando-a aos jovens.

§10. A juventude é precisamente a idade próspera ao estudo dessa arte; porque é natural que os jovens não suportem aquilo que nada oferecem de agradável. (...) a música é (...) uma das coisas que (...) trazem agrado. Parece (...) que existe na harmonia e no ritmo algo de análogo à natureza humana (...) a alma e uma harmonia, e outros que ela encerra a abraça a harmonia.

 

Capitulo VI

§1. Será (...) preciso (...) que os jovens aprendam a música exercitando-se aprendam a música exercitando-se no canto [22] e tocando instrumentos (...). Porque é (...) impossível, ser bom juiz numa arte que não se pratique. (...) [,] é preciso que as crianças tenham uma ocupação (...) a matraca que se dá aos meninos a fim de que (...) nada quebrem em casa [23] (...) [.] A matraca é, pois, um brinquedo que convém aos pequerruchos (...) [.] Deve-se, pois, ensinar a música aos jovens, e obriga-los a cultivá-la eles próprios. (pág 277)

§2. (...) é preciso, para bem julgar uma arte, a ela estar afeito, deve-se praticá-la ao menos durante a juventude, (...) [.] E então se poderá apreciar a grandeza dessa arte e dela gozar graças ao conhecimento que se terá adquirido na juventude.

§3. Quanto à censura, que fazem alguns à música, de ser ocupação baixa e servil, (...) aos homens cuja ocupação tem por fim a virtude política, quais acordes e ritmos que devem estudar, e que instrumentos lhes convêm aprender tocar. (...) Nada impede (...) que a música tenha certos tons próprios a produzirem os excessos mencionados. [24]

§4. Também se compreende que é preciso que o estudo da música em nada possa prejudicar as coisas que se tiver de fazer em seguida, nem aviltar o corpo, (...) ou impróprio para as funções civis; ela não deve ser a princípio um obstáculo à prática das forças do corpo, mais tarde aos trabalhos do espirito. (...) É preciso, no entanto, nele estar exercitado, pelo menos o suficiente para sentir prazer nos cantos e ritmos que tem beleza real, e não somente na música comum e vulgar (...).

§5. Claramente se compreende quais são os instrumentos dos quais se deve fazer uso. (...) apenas aqueles que farão dos jovens ouvintes inteligentes a tudo que se refere à educação musical e aos outros ramos dessa arte. Alias, a flauta não é adequada a operar sobre as afeições morais. (pág 278) Só deve ser empregada quando os espetáculos tem mais por objetivo corrigir (...) [.] o emprego da flauta tem algo de contrário à necessidade de instrução e impossibilita o uso da palavra. [25]

§6. (...) entregaram-se a todos os gêneros de conhecimentos, (...) a nenhum querendo desprezar: foi isso que os levou a elevar a arte de tocar flauta à altura de verdadeira ciência.[26] (...) se viu em Lacedemônia um magistrado (...) [flautista], e logo (...) em Atenas (...) a maioria dos homens livres procurava adquirir esse talento.

§7. Mas depois renunciou-se a essa arte, quando a própria experiência ensinou a melhor distinguir o que tende para a virtude [27] (...). Aboliu-se também um grande número de instrumentos que antigamente se usava, e todos os que exigem um prolongado exercício da mão. [28]

§8. Não sem razão imaginaram os antigos uma fábula a respeito da flauta. Contam que Atena, que a inventara não tardou a pô-la de lado (...) porque este instrumento deforma a fisionomia. No entanto, é mais verossímil que tal se desse porque o estudo da flauta em nada contribui para o aperfeiçoamento da inteligência.[29]

 

Capitulo VII

§1. Não aprovamos, pois , em matéria de instrumento, e de educação musical, a perfeição que vá até a arte, e que é tal como constatamos nos concursos solenes. Aquele que a (pág279) procura não trabalha para se aperfeiçoar em virtude, mas para o gozo dos que escutam, e por prazer grosseiro e vulgar. [30] É por isso que tal talento não nos parece convir a homens livres, mas antes a mercenários (...); porque a intenção é má, e delas eles fazem um objetivo. [31] O espectador ignorante (...) [transforma] a música a tal ponto que [lhe] atribui (...) um caráter particular (...) [, deformando] seus corpos (...) [pelo] jogo (...) [que os] instrumentos exige[m]. [32]

§2. Trata-se agora de examinar, em matéria de harmonia e ritmos, se todos as harmonias e ritmos devem ser usadas na educação, ou se existe alguma distinção a estabelecer. (...) para os que trabalham na arte musical, a divisão em dois gêneros, (...) [ou três. A] música, (...) se compõem de melopéias e ritmos; mas não se deve ignorar o efeito de cada uma dessas (...) à educação.

§3. (...) reconhecemos já ter sido o assunto tratado (...) por sábios músicos de profissão, e filósofos possuidores de um conhecimento (...) de música, (...) consultem suas obras aqueles que queiram detalhes exatos e completos (...) [33]

§4. (...) aceitando a divisão dos cantos adotados por alguns filósofos, (...) diremos que o uso da música não se limita a um só gênero de utilidade, e que, antes, ela deve ter vários. (...) ela pode servir à instrução, à purificação, [34] (...); ao prazer, (...) distração e repouso após uma atenção prolongada. [35] Disso resulta claramente que se deve fazer uso de todas as espécies de harmonias, mas não de um só modo em todos os casos. [36] (...) é preciso fazer servir os cantos morais à instrução (...) (pág 280) os que são próprios a despertar o entusiasmo (...)

§5. Esta maneira de impressionar-se, tão viva e profunda em certas pessoas, existe no fundo de todos os homens, só difere pelo mais ou pelo menos. Por exemplo, a piedade, o medo e também o entusiasmo (...) movimentos da alma (...) [. Existem] os que se tornam calmos e absortos sob a influência das melodias sagradas, (...) dir-se-ia que encontram o remédio que poderia purifica-la. [37]

§6. Os homens predispostos (...) devem forçosamente experimentar o mesmo efeito (...) todos devem experimentar uma espécie de purificação e alivio acompanhada de uma sensação de prazer. É assim que os cantos que purificam as paixões dão aos homens uma alegria ingênua e pura (...), é com tais harmonias e canos que os artistas que executam a música (...) devem agir sobre a alma dos ouvintes.  

§7. No entanto, havendo duas espécies de espectadores, uns homens livres e bem educados, outros grosseiros, artesãos, mercenários (...) [38], é preciso também conceder esses últimos diversão e representações próprias (...). Cada qual só encontra prazer naquilo que se adapta à sua natureza. (...) Mas na educação, como já foi dito, só se deve servir de cantos morais e harmonias convenientes.

§8. (...) a harmonia dórica, (...) a ela é preciso acrescentar (...) outra (...) que tenha aprovação dos filósofos que trataram deste assunto e quer meditaram sobre a parte da educação que se refere á música. É erradamente que Sócrates (...) só permite a união da harmonia frígia à dórica, [39] (pág 281) após proibir o uso da flauta; porque a harmonia frígia produz o mesmo efeito, entre as harmonias que a flauta entre os instrumentos; ambas despertam paixões e (...) entusiasmos.

§9. (...) todos os cantos consagrados a Baco e todos os movimentos desta espécie são mais acompanhados de flauta que qualquer outro instrumento; mas é nos cantos adaptados à harmonia frígia que eles tomam o característico que lhes convém especialmente; (...) Filoxênio (...) tendo-o começado [a compor uma música] no tom dórico, (...) viu-se forçado pela própria natureza da sua composição, a recair na harmonia frígia, que se adapta a esse gênero de poesia.

§10. Quanto à harmonia dórica, concorda-se (...) em reconhecer-lhe um caráter de gravidade sustenida e de energia varonil; (...) como é, em nossa opinião,  esse meio termo que se deve procurar segurar, (...) exatamente a relação em que se encontra a harmonia dórica com outras harmonias, segue-se evidentemente que os cantos dóricos são os que se deve ensinar aos jovens. (...) há dois dois objetivos que se deve ter em vista (...) porque, com efeito, deve-se procurar de preferência aquilo que é possível e convenientemente para cada indivíduo.[40]

§11. (...) muitos daqueles que se ocupam da música censuram a Sócrates o fato deste desaprova, na educação o emprego dos cantos desta espécie sob o pretexto de (pág 282) que eles têm o característico da embriaguez. (...) esses cantos são antes a expressão da fraqueza da idade. Resulta disso que é bom (...) estudar essas harmonias e cantos. (...) [e] acrescentar-lhe qualquer outro tom semelhante que conviesse à infância (...) podendo (...) instruí-la e inspirar-lhe o sentimento de decência; o tom lídio tem esse duplo mérito, [41] (...) há três coisas a observar em relação à educação: o meio termo, a possibilidade e a conveniência. (pág 283)



Nota complementar:

1) A edição da Martim Claret, e as três digitais ofertadas pelo maestro e pelos meus professores da graduação para a minha pesquisa e a que busquei de forma autônoma tiveram o mesmo problema e, portanto, não foram utilizadas neste trabalho, foi utilizada uma quinta.

 

Procurei auxílio do professor da minha graduação em filosofia que, além de me enviar um link com o livro em formato digital me forneceu a seguinte resposta:

“Olá Maurício está parte que  Aristóteles fala sobre Educação:
O Papel da Música.

“Há mais ou menos quatro coisas que de ordinário se ensinam às crianças: 1°- as letras; 2°- a ginástica; 3°- a música; alguns acrescentam em 4° a pintura; a escrita e a pintura para as diversas circunstâncias da vida; a ginástica por servir para educar a coragem. Quanto à música, sua utilidade não é igualmente reconhecida. Muitos hoje a aprendem apenas por prazer. Mas os antigos fizeram dela, desde os primeiros tempos, uma parte da educação, pois a natureza, como já dissemos várias vezes, não procura apenas dar exatidão às ações, mas também dignidade ao repouso. A música é o princípio de todos os encantos da vida. [...].””

Este trecho acima, pela analise do conteúdo, da mensagem, se encontra no capítulo 2, §3.

 

Nas notas de rodapé podem ser encontradas complementos oriundos do próprio texto e também comentários pessoais.

 

 

 Referências

ARISTÓTELES. A Política. Bauru, SP: EDIPRO, 2009



[1] Preocupação com o educar na virtude.

[2] Educação estatal para o bem do Estado e não para o indivíduo. A educação individualizada não é bem vista.

[3] O não consenso entre os educadores é algo bastante antigo em função das diversas variáveis que cada modelo educacional busca em função dos objetivos e qual seria o melhor para a sociedade. Causaria estranhamento à mim se professores sérios chegassem em um consenso em nosso tempo, levando em conta que a nossa sociedade é muito mais complexa e geograficamente maior que os Estados gregos da Antiguidade.

[4] Não existe consenso quanto ao melhor caminho educacional neste momento histórico da Grécia Antiga.

[5] Preocupação com a sobrevivência do corpo

[6] Pois impossibilita para a virtude e inteligência, como pode ser visto no texto consultado na página 268.

[7] Preocupação com a sobrevivência da alma e a dignidade.

[8] Os perigos da obsessão, talvez.

[9] O ser útil à si mesmo e amigos.

[10] E como tem pessoas que prostituem sua arte e ciência por causa de um prato de lentilhas.

[11] Este trecho ou muito similar está também em “Nota complementar” em função da ajuda recebida neste fragmento, ajuda esta que merece ser mencionada.  

[12] Hedonismo com equilíbrio e não de forma desenfreada como se tornou hoje e já demonstrou o Marquês de Sade na literatura.

[13] Todo vício escraviza retirando assim a liberdade, portanto, é preciso cuidado com o prazer para não nos tornarmos escravos/viciados. Quantos escravos, viciados em sexo existem na sociedade?

[14] Não podemos nos esquecer jamais da importância do ócio criativo.

[15] Sobre o esporte existia uma divisão em duas partes. A ginástica olhava para a saúde de forma global e científica sendo mais teórica. A pedotríbica focava exclusivamente os exercícios, sendo mais prática. Conforme página 271. 

[16] Ferocidade e coragem, para Aristóteles são coisas diferentes.

[17] Encarariam sem medo.

[18] Incrível como os antigos já sabiam tantas coisas.

[19] É possível julgar bem algo que não se conhece?

[20] Também conhecida como inspiração divina ou musa inspiradora. A titulo de curiosidade, Musa era uma divindade. Existe uma para cada arte, e arte na Grécia Antiga incluía a medicina, a navegação, a poesia, a música e etc.

[21] Moral está relacionado ao comportamento em sociedade.

[22] Canto coral, solfejo e etc.

[23] Evitando assim problemas e aborrecimentos maiores para os pais.

[24] Ou a virtude necessária aos homens da política.

[25] A boca está ocupada no sopro.

[26] O virtuosismo musical já existia na Antigüidade, não foi criação do romantismo do século XIX.

[27] O que me leva a cogitar que, segundo Aristóteles, Platão não estava completamente errado em suas colocações sobre a arte. Quem sabe, não mesmo?

[28] O trabalho não era bem visto na Grécia Antiga. Me parece que isto não mudou nos dias de hoje.

[29] Atena preside as ciências e as artes, conforme página 279 do livro base.

[30] Aristóteles nos faz entender que o virtuosismo musical necessário aos concursos solenes, competições, festivais, shows de calouros e etc, nos retira um tempo precioso para o desenvolvimento das virtudes pessoais.

[31] Ao abandonar as virtudes, as questões éticas e morais, uma sociedade não pode produzir bom fruto. Pessoalmente entendo que, diversos dos problemas sociais seriam resolvidos ao retornar a olhar as questões éticas e morais. 

[32] Isto continua igual até hoje.

[33] Indicação e fomento a pesquisa.

[34] Consultar “Poética” do mesmo autor para maiores detalhes acerca de sua visão sobre o tema.

[35] Lembrando o que o Maestro Dante falou na primeira aula sobre o usar a leitura de várias línguas antes de dormir para induzir o sono, o descanso.

[36] Fazendo me lembrar do professor Antônio Gastão, compositor, professor da licenciatura em música da UCP em Petrópolis – RJ e de nossas conversas sobre o trabalho do compositor musical nos dias de hoje.

[37] O que nos faz lembrar da obra do Dr Minh Dung Nghiem, “Música, inteligência e personalidade, da Vide Editorial.

[38] Curiosamente surge uma sonoridade poética apesar de não ter rimas como objetivo e nem a busca pelos finais similares das palavras utilizada.

[39] Ver a “República” de Platão.

[40] O tônus muscular da juventude facilita o cantar notas mais agudas

[41] Sendo, talvez o preferível para se iniciar este tipo de estudo, justamente em função do duplo mérito.

Estudos 1

 Deste logos sendo sempre os homens se tornam descompassados quer antes de ouvir quer tão logo tenham ouvido; pois, tornando-se todas (as co...